Tenho pensado muito em casamento. Talvez seja porque ouço a palavra umas 25 mil vezes por dia, já que passo boa parte dele com duas noivas. Quando falo casamento, falo de tudo: da festa, do que significa a instituição, do que significa para um relacionamento estável juntar os trapinhos legalmente. E foi por tudo isso que fui ler o livro “Comprometida”, da Elizabeth Gilbert (sim, a mesma do Comer, Rezar, Amar. Acho a mulher divertida, tá? E não importa a fotinho dela na orelha do livro, ela sempre vai ter a cara da Julia Roberts pra mim). No livro, Elizabeth faz um ensaio sobre o casamento e sua importância na sociedade ocidental. O que ela fez, na minha opinião, foi estudar o negócio para se convencer de que casar é algo realmente importante, depois que o governo americano impôs como única condição legalizar a união dela com Felipe, brasileiro (o Javier Bardem no filme) para que ele pudesse morar nos Estados Unidos.
Nunca pensei em casar. Nunca sonhei com festa de casamento. Esses sempre foram os sonhos da minha irmã e, como somos o oposto uma da outra, obviamente, nunca foram os meus desejos. Eu queria ser independente. Estudar, ter uma carreira, viajar. Não queria depender de homem nenhum. Coisa de aquariana. Aos 15 anos, eu e quatro minhas melhores amigas fizemos uma aposta de quem ia se casar primeiro. Eu e uma outra (aquariana também) fomos eleitas as últimas a se casarem. Deu errado. Ela casou, com festão e tudo, a segunda de nós. Casou, inclusive, com o namorado de infância. E são hoje um casal feliz.
Nunca quis casar porque, quando mais nova, pensava no casamento como algo que diminui a mulher. E faz sentido. Basta olhar a história. A mulher mal podia escolher com quem casar. Era algo arranjado pelas famílias. Sua função era cuidar da casa, dos filhos, do marido. E de um marido de quem talvez não gostasse, mas abandoná-lo era um escândalo. Já contei a história da minha avó aqui. E nessa rotina perdia muito do seu eu. E isso tudo era algo para o qual nunca tive a mínima disposição.
Mas o tempo vai passando e a necessidade de encontrar alguém para compartilhar simplesmente TUDO chega. Começa quando você encontra uma pessoa realmente muito legal. Ela te ouve, você a ouve. Trocam experiências. Riem e choram juntos. E, quando você percebe, depende - de um modo positivo – dessa pessoa. E sabe que ela também depende de você. Simplesmente porque vocês se amam. Escolheram amar um ao outro. E eu acredito que até o mais duro dos seres está sempre em busca dessa pessoa, dessa possibilidade de amor.
E aí cada um escolhe como passar o resto da vida. Eu, quando me vi, estava aqui, bem aqui de onde escrevo agora. Não casei legalmente. E, sinceramente, não me faz falta. Nossa vida juntos reflete esse compartilhar. É bom saber que, quando saio pela manhã, deixo em casa alguém que eu amo, que reconheceria em qualquer lugar do mundo, em meio a milhões de outras faces. E que, ao chegar em casa, terá alguém que me ama pronto para me abraçar. E a gente se ama assim, com o pacote completo. Se a gente precisa de festa, de um momento pomposo pra celebrar tudo isso com a família e amigos? Não. A gente faz isso todo dia. E se a gente precisa se unir perante os olhos do Estado para provar alguma coisa? Não. O Estado não nos deve nada, então, não devemos nada a ele também.
Mas não julgo quem sonha com o grande dia, com véu, grinalda, igreja, vestido, etc. O casamento tem – e sempre terá – papel importante. Gostei da ideia final do livro da Elizabeth. Ela conta de um ensaio de um britânico. Ele defende que todo casamento (legal ou não) é sempre um ato de revolução contra o autoritarismo. Afinal, ninguém consegue se meter e manipular um casal na sua intimidade. Não apenas intimidade sexual, mas sim, aquele que se refere a viver uma vida juntos e dividir segredos, informações, crenças que são sempre somente do casal. Por isso, segundo o britânico aí, a igreja sempre tentou controlar o casamento. Por isso, algumas sociedades, em determinados períodos, eram proibidas de se casarem (como os escravos norte-americanos). Por isso, os gays lutam pelo direito à união civil. É uma ideia romântica, eu sei. Mas gostei do poder que dá à união entre duas pessoas.
Quanto a mim, está tudo ótimo do jeito que está. Está bem do nosso jeito.
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